top of page
Buscar

Por que a medicina está formando médicos e médicas cada vez mais frustrados

  • Foto do escritor: Daniel Deggerone
    Daniel Deggerone
  • 18 de jan.
  • 4 min de leitura

Já perceberam que o mercado médico parece estar entrando em colapso com a abertura de cursos de medicina pelo país, mas, ao mesmo tempo, as faculdades anunciam para os alunos que eles estão caminhando em direção à terra prometida?


Sonhos, glamour, festas, pompa, entidades, discursos, aplausos, aplausos e aplausos. 

Cada vez mais aplausos.


O curso de medicina se tornou a vaca leiteira das instituições de ensino superior.

Cobram o olho da cara e te vendem sonhos. 

A realidade não importa muito.

Com um pé na bunda ao final da formatura, o problema não é mais delas.


Claro que existe, também, um grande e gigantesco viés com nós, médicos há algum tempo. 

Nos tornamos professores e preceptores em cursos que não deveriam existir.

Inventamos muitas narrativas, criadas por nossas mentes, para justificar, racionalmente, isso.

Mas, no fundo, nossos egos são bajulados, recebemos salário, títulos e palestras, 

Ganhamos visibilidade e os alunos se tornam nossos pacientes.

Não é necessário ser um gênio para enxergar porque existe pronta disponibilidade para montar um corpo docente em cursos que, obviamente, não deveriam existir.


“Bom, então, Daniel, você está me dizendo que a medicina é uma merda e eu não deveria fazer isso?”


Não, não estou dizendo isso.


A medicina me proporciona uma ótima vida.

Eu demorei muito tempo para me encontrar nela. 

Precisei de 3 residências e um abandono de carreira pelo caminho para estar satisfeito com a vida que eu levo.


O que estou querendo dizer é que um aluno de medicina - hoje em dia mais do que nunca - precisa enxergar além do seu desejo escondido de ser admirado pelos outros, das lutas de ego e dos benefícios escondidos às custas de fodeção alheia.


MEU PONTO PRINCIPAL: Praticamente em qualquer profissão do mundo você começa ganhando menos e trabalhando mais. Não há nada de errado com isso.

Só que, para os formandos de medicina, no cenário atual, esse choque com a realidade está sendo brutal, porque a queda está sendo grande demais.


Essa queda é alimentada dos dois lados. 

Uma subindo e a outra cavando. 

Endeusando demais a formação médica e fodendo demais a vida do recém formado. 


Um dia é pompa, aplausos, homenagens, salto alto e glorificação (Sempre aumentando)

No outro dia é fila, multidão, xingamento, tênis fudido e pedir penico na UPA (Sempre cavando)


Nenhuma mente humana lida de forma saudável com isso.

Você começa a se frustrar, sem fim, e passa a ter certeza que “não deveria ser dessa forma”


“Não deveria ser forma” porque inflaram uma expectativa dentro da sua cabeça de uma maneira completamente desconexa com a realidade de hoje.


RESUMO DA ÓPERA: Se você é uma pessoa que completou apenas o ensino fundamental e começa em um emprego ganhando pouco, talvez você entenda que aquilo faz parte da realidade e está tudo certo.

Agora, se você é um estudante de medicina, criado em uma família com boas condições financeiras, tendo passado 6 anos na faculdade onde lhe foi vendida a promessa de sucesso, status e dinheiro, o choque com a realidade está sendo avassalador.

Você não será capaz de aceitar isso como parte normal da realidade, porque você não sabe nem a cor nem a forma  dela.


É isso que estou, realmente, querendo dizer.


Quanto mais a realidade aperta, mais a megalomania em torno do ensino médico aumenta, em um ciclo de negação que se retroalimenta,


Resultado: milhares - em breve milhões - de médicos insatisfeitos, desmotivados e achando que existe algo profundamente errado com o mundo.


“Mas por que isso está acontecendo?”


TROCANDO EM MIÚDOS: É simples. Quem paga muito por algo, espera receber muito em troca.


Se eu lhe ofereço um pacote de mandolate e você pergunta: “quanto é?” e eu respondo “500 mil reais”, você, talvez, me mande à merda.

Você conclui que um pacote de mandolate não vale meio milhão.


Quanto maior a quantia paga, maior a expectativa gerada em torno do retorno futuro.



CENÁRIO HIPOTÉTICO: digamos que a faculdade de medicina custasse 500 reais por mês e durasse 1 ano.


Quais seriam suas expectativas de emprego, renda e futuro nesse cenário? Provavelmente baixas.



CENÁRIO ATUAL: hoje a faculdade de medicina custa um milhão e leva 6 anos, isso sem contar nenhuma residência médica


Quais são as suas expectativas de emprego, renda e futuro aqui? Altas. Bem altas



Nossos alunos estão sendo convencidos, goela abaixo, de que esse investimento gigantesco de tempo e dinheiro vale à pena.


“Daniel, por que eles precisam ser convencidos disso?”


Porque ninguém continua pagando algo que sabe que não vale.


A minha empresa de mandolates não vai continuar em pé se eu continuar cobrando 500 mil reais cada pacote, a menos que eu seja capaz de convencer pessoas que esse mandolate faz elas chegarem até os 100 anos de vida.

Se eu conseguir isso, logo vão aparecer pessoas dispostas a pagar ainda mais por eles.


Valor = expectativa de retorno


Ao meu ver, essa troca em torno do ensino médico pode - ou não - valer à pena. 

Eu ainda acho que, para muitos, ela vai valer.

Mas, neste momento, o degrau está íngreme demais.


A pessoa precisa entender que toda essa glorificação e o mamute financeiro em torno da formação médica, estão, de forma despercebida, conspirando, a todo momento, 24h por dia, para gerar frustração futura.


Ou você quebra esse ciclo, se afastando de delírios coletivos, se dedicando para compreender como prosperar com os pés no chão ao invés de a cabeça nas nuvens, ou quem vai ser quebrado será você, sem ter a menor ideia do que está acontecendo.



Daniel Deggerone


Anestesiologista

Cirurgião Plástico

Delegado Seccional CREMERS


 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Imaginando seu futuro na Medicina

Digamos que você está entrando na faculdade. Sua mente é uma esponja e está confabulando possíveis trajetórias profissionais, pensando, a...

 
 
 

Comentários


bottom of page